A evolução da oftalmologia sempre esteve ligada à nossa capacidade de enxergar além do óbvio. Quando falamos sobre miopia progressiva, medir apenas o grau já não é suficiente. Precisamos compreender como o olho cresce, como seus tecidos se comportam e quais fatores realmente influenciam a progressão da doença.
É com enorme satisfação que compartilho a publicação do artigo “Relationship Between Scheimpflug-Based Ocular Biomechanics and Myopia Progression in Adolescents”, na revista internacional Bioengineering.
Também tive a honra de colaborar como orientador do doutorado do Dr. Pedro Baptista, na Universidade do Porto, em um projeto que representa exatamente o tipo de ciência que acredito ser capaz de transformar a prática clínica: pesquisa rigorosa, aplicada e voltada para responder perguntas que impactam diretamente a vida dos pacientes.
Um olhar além do grau da miopia
A miopia vem crescendo em todo o mundo e já é considerada um importante desafio de saúde
pública. Em muitos casos, a preocupação está centrada apenas no aumento do grau, mas a
verdadeira questão é compreender por que alguns olhos continuam crescendo e apresentam
maior risco de desenvolver complicações ao longo da vida.
Foi justamente essa pergunta que motivou nossa pesquisa.
Durante aproximadamente dois anos e meio, acompanhamos adolescentes para investigar como determinados parâmetros da biomecânica ocular poderiam se relacionar ao alongamento do olho e à progressão da miopia.
Para isso, utilizamos o Corvis ST, equipamento que emprega tecnologia Scheimpflug de alta velocidade para avaliar o comportamento biomecânico do olho de forma extremamente precisa.
O que descobrimos?
Os resultados demonstraram associações independentes entre características biomecânicas do olho e diferentes indicadores da progressão da miopia, incluindo o alongamento axial, o alongamento segmentar ocular e a evolução refracional.
Entre os parâmetros que apresentaram maior relevância destacam-se:
• Pressão intraocular biomecanicamente corrigida (bIOP);
• Integrated Radius;
• Whole Eye Movement Max Time.
Esses achados reforçam que a biomecânica ocular pode desempenhar um papel importante na identificação do risco de progressão da miopia.
Em outras palavras, estamos caminhando para uma oftalmologia capaz de compreender não apenas quanto o olho mudou, mas também como ele tende a evoluir.
Ciência para personalizar o cuidado
Ao longo da minha carreira, tenho dedicado grande parte da pesquisa ao estudo da tomografia,
da biomecânica da córnea e da inteligência artificial aplicada à oftalmologia.
Acredito que o futuro pertence à medicina personalizada.
Quanto mais informações conseguimos integrar sobre cada paciente, maior é nossa capacidade de
tomar decisões seguras, individualizadas e baseadas em evidências científicas.
Esse conceito vale tanto para a cirurgia refrativa quanto para o acompanhamento da miopia em
crianças e adolescentes.
Pesquisa que chega ao consultório
A produção científica só faz sentido quando consegue beneficiar as pessoas.
Por isso, é motivo de grande satisfação ver que tecnologias como o Corvis ST, utilizadas
nesta pesquisa, já fazem parte da rotina do Rio Vision Hospital e do Instituto de Olhos
Renato Ambrósio.
Nosso objetivo é oferecer uma avaliação cada vez mais completa, permitindo identificar
fatores de risco precocemente e construir estratégias personalizadas para acompanhar a
evolução da miopia.
Mais do que tratar uma alteração visual, buscamos compreender cada olho em sua individualidade.
O futuro da oftalmologia começa pelo conhecimento
Tenho convicção de que os maiores avanços da oftalmologia nascerão da integração entre pesquisa científica, tecnologia e experiência clínica.
Cada estudo amplia nossa capacidade de entender doenças complexas e nos aproxima de uma medicina mais preventiva, precisa e humana.
Seguirei investindo na produção de conhecimento, na formação de novos pesquisadores e no desenvolvimento de soluções que contribuam para proteger a visão das próximas gerações.
Porque compreender como o olho evolui é, hoje, tão importante quanto medir o seu grau.