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Pesquisa no HUGG fortalece o cuidado em ceratocone

o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG-Unirio), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), a produção científica em Oftalmologia vem reforçando a importância do diagnóstico seguro do ceratocone, da educação em saúde para pacientes e familiares e da integração entre ambulatório, pós-graduação e projetos de extensão. Ceratocone é uma doença que afina e deforma a córnea, provocando distorção visual e podendo progredir se não tratada. Nesta edição do quadro De Olho na Pesquisa, o destaque é uma linha de investigação que alia tecnologia diagnóstica, formação de especialistas e ações educativas para reduzir perdas visuais evitáveis.

Professor e pesquisador da Unirio, com atuação no ambulatório de ceratocone do HUGG e orientação de dissertações, Renato Ambrósio resume a origem dessa agenda científica: “Em 1997, uma topografia de córnea mostrou um encurvamento que sugeria ceratocone. Depois entendi que era um ceratocone subclínico, estável desde então.” A vivência pessoal se somou à prática clínica e consolidou um princípio que orienta o serviço: aumentar a segurança na cirurgia refrativa. “A gente não quer só saber se tem ceratocone; a gente quer saber se aquela córnea pode ser enfraquecida. A cirurgia com laser vai enfraquecer a córnea. Então, tem que fazer a caracterização da córnea para ver se você pode fazer a cirurgia de forma segura”.

Esse enfoque se traduz no uso combinado de métodos e equipamentos que elevam a precisão diagnóstica (OCT; Pentacam AXL, tomógrafo de córnea por câmera de Scheimpflug; e Corvis, avaliação biomecânica), em colaboração com centros internacionais e com apoio de inteligência artificial para transformar grandes volumes de dados em índices clínicos de apoio à decisão. A atuação, explica o pesquisador, está organizada sobre os três pilares da universidade — assistência, formação e pesquisa/desenvolvimento — e conecta consultório, sala de aula e laboratório.

O caráter educativo aparece com força nas campanhas e na abordagem preventiva. “A falta de conhecimento e desconhecimento fazem o paciente e os familiares sofrerem mais do que a própria doença, muitas vezes”, afirma. Na campanha Junho Violeta, criada para orientar e conscientizar, as mensagens-chave passam por atitudes simples e de alto impacto. “Você entender que não pode coçar o olho, que é o que mais agrava a doença. E talvez o conhecimento de não poder coçar o olho, com o conhecimento sobre um screening (triagem) e um acompanhamento para fazer, eventualmente, o crosslinking (procedimento que fortalece as fibras de colágeno da córnea para estabilizar a doença) em uma fase inicial, pode ser extremamente valioso para evitar a perda visual”. Ele reforça o custo de um diagnóstico tardio: “Quando você vê um paciente ambulatorial que vem já numa fase mais avançada, a gente já perdeu a oportunidade de ajudar esse paciente”.

Os frutos dessa integração aparecem nas dissertações que orienta e que alimentam ações de assistência e extensão. Em um screening realizado por Lorena Santos Barros com 521 participantes sem diagnóstico prévio, foram identificados 13,8% de casos subclínicos pela tomografia e 18,2% pela análise combinada com parâmetros biomecânicos. Já a pesquisa on-line conduzida por João Batista Ramos da Fonseca Filho com 879 respondentes mostrou que 45,8% não sabem o que é ceratocone, além de alto relato de alergias — fatores que reforçam a necessidade de informação e rastreio. Para o professor, esse duplo eixo — prevalência e conhecimento — dá direção às prioridades: ampliar triagens, orientar famílias e intervir cedo quando indicado.

A lógica de cuidado é interdisciplinar e envolve Oftalmologia, Alergologia/Imunologia e outras áreas: “Muitos pacientes precisam tratar a alergia para diminuir o ato de coçar. Dentro da Oftalmologia, há o clínico geral, o especialista em córnea — que pode fazer o crosslinking e até o transplante — e o profissional que adapta lentes. O paciente com ceratocone tem que cuidar da saúde ocular como um todo: tem a ver com glaucoma, tem a ver com retina, tem a ver com tudo”. O pesquisador sintetiza a direção: “Prevenir é melhor que remediar. As campanhas fazem sentido pela oportunidade de diminuir o sofrimento, aumentar a qualidade de vida e, literalmente, fazer o mundo melhor.”

No hospital universitário, essa engrenagem volta a girar na formação. “Para a gente poder fazer assistência de ponta, de excelência, você precisa ter um médico bem formado, e esse médico bem formado precisa ter não só uma formação clínica, mas uma formação científica.” Para ele, ciência também é método de atualização: “A medicina vai ter uma necessidade de constante atualização. A ciência ensina a aprender a aprender”. E é pedagógico por essência: “Nosso trabalho é ensinar a perguntar e aprender a responder as perguntas científicas”. O objetivo, resume, é formar profissionais mais conscientes e transformar esse aprendizado em cuidado melhor no SUS — com diagnóstico preciso, educação em saúde e intervenção oportuna.

Fonte: gov.br (link para o artigo original)

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